Tuesday, June 20, 2017

«Poesia e outras coisas» em Mário Filipe Neves!...



«Mário Neves, leva-nos através de pensamentos em prosa, de palavras poéticas lindamente ordenadas, ao sonho, ao amor... à beleza de estar vivo e sentir a conjugação de todos os elementos que nos espreitam»

Silvestre Fonseca

Há cerca de dois meses que não dávamos sinal de vida activa, no que toca à premeditada, porque necessária, inspiração de “ao correr da pena e da mente” falarmos daquilo que desperta o nosso interesse, sem nos vincularmos aos interesses dos outros, o que desde já nos penitenciamos por essa falta de respeito para com os nossos leitores que nos respeitam e consideram, acendendo, à boa maneira chinesa, uma vela, em vez de amaldiçoarem a escuridão.
Embora sejamos apologistas de que a biografia de alguém (artista, autor, poeta) está ou se reflecte na sua obra, não queríamos deixar de referir apenas umas pequenas notas, sem adularmos o escritor/poeta antes de conhecermos a sua obra. O factor identitário impõe-se pela circunstância de neste caso Mário Filipe Neves se nos apresentar como santo fora da casa, do qual esperamos um “milagre”, sem práticas rituais ou “purificações pelo delírio”. Daí, atrevermo-nos perante a sua presença física, dizermos que Mário Filipe Santos Neves, filho mais velho dos três que sua mãe deu à luz, nasceu em Lisboa, a 29 de Dezembro de 1958; frequentou o curso de Engenharia Civil, até ao 3.º Ano, no Instituto Superior Técnico de Lisboa; no início de 1980 emigrou para Toronto, Canadá, onde viveu uma experiência no mundo do trabalho e da emigração; regressou a Portugal, no final do mesmo ano, saudoso de seus amigos e familiares, tendo iniciado um percurso pelo mundo da música e das canções, como cantautor, durante cerca de quatro anos; começou a trabalhar na empresa CTT – Correios de Portugal, SA, em 1981, onde permanece até hoje, já com 36 anos de serviço. Actualmente, e nos últimos 22 anos, desempenha as funções de Auditor interno na mesma empresa.


Nos tempos livres dedica-se à escrita (poesia, prosa, pensamentos e outras coisas que vão surgindo no tempo e na memória) e à divulgação da mesma. Co-autor, desde 2015, em diversas colectâneas de prosa e poesia, vê agora, com a publicação deste livro «Poesia e outras coisas», a sua primeira obra pessoal editada.
Posto isto, e ainda que voltemos a entrar no contraditório, tendo em conta que entendemos que poesia não deve ser explicada mas sentida, permitimo-nos a ultrapassar essa condicionante deontológica, para justificar a nossa “obrigação e desobediência ética” de estarmos, aqui e hoje, a apresentarmos a «Poesia e outras coisas» em Mário Filipe Neves.
Foi fácil para nós aceitarmos o desafio de apresentarmos o seu livro, naquele dia 18 de Março de 2012, porque nos identificamos com o seu discorrer do pensamento, aprofundado na descrição e “manuseamento” do fenómeno do conhecimento. Ao contrário de alguns poetas, Mário Neves não se deixa enredar pela tentação do jogo das “palavras soltas”, porque se fixa no conhecimento, enquanto relação do sujeito e do objecto, neste caso concreto, o poeta e a palavra dita e escrita.
Sem querermos recalcar os velhos clichés de que “não é poeta quem quer” ou “o poeta nasce e depois faz-se”, permitimo-nos, ainda que a nossa opinião seja sempre subjectiva, em afirmar que estamos perante um verdadeiro poeta. Em Mário Neves, as palavras soltas assentam na promessa de as mesmas o animarem através dos desenhos que os lábios o fazem escutar.
Mário Neves, enquanto SER pensante, reformula-se e encontra-se com a ajuda da ideia da «consciência em geral», pondo em prática as ideias inatas através da consciência concreta e individual. Daí não estranharmos o facto de ele ter receio de não ter medo daquilo que não percebe. A sua missão não é resolver o problema do conhecimento mas sim conduzir-nos à presença do problema.
Mário Neves tem consciência de que só é possível vivermos mantendo uma relação com o outro lado de nós: os outros, e como diria Goethe, a luta consigo próprio, o insaciável desejo de mais pureza, sabedoria, bondade e amor. O tempo e a história, os passos e as emoções, tocam profundamente o poeta. Há uma necessidade de aconchego, de saudade, de depuração.
A nossa empatia imediata pela poética e pensamento de Mário Neves, advém da natureza do EU, na sua essência e plano psicológico, análogo à que existe entre os acidentes e a substância, e à boa maneira kantiana, pela medida em que se nos colocam os problemas derivados da passagem da razão teórica à razão prática. O plano metafísico também tem lugar no EU de Mário Neves, porque é capaz de conter a consciência empírica como forma particular dele mesmo.
Concordamos com as palavras tomadas por Silvestre Fonseca (músico e escritor, circunstancial prefaciador deste brado poético) a Mário Neves – …Quem sabe um dia, emerges, te levantas e te ergues caminhando pelas margens nesta direcção de mim?...para depreender que estas palavras que nos prendem, integram o “Destino submerso” e mostram o perfil do autor, desafiante, sensível, amante das ideias e dos ideais e sobretudo… igual a si mesmo, como sempre foi… um bom amigo de refinado sentido de humor e… um grande Homem! – citamos. Mário Neves prende-nos por aquilo que temos de comum: a esperança de renascer, forma activa de aprender com os outros, imaginar o vácuo e, sobretudo, a cosmovisão, enquanto concepção do mundo que nos é dada de uma vez na sua totalidade, inalterável ao grito do poeta.
Antes de terminarmos, não queríamos deixar de referir que os hipotéticos leitores deste maravilhoso brado poético de Mário Neves encontrarão espaços e tempos de liberdade, vontades de descobrir a verdade, sonhos (sendo que alguns tropeçam no vazio e se afundam), destinos, silêncios e omissões, castelos de areia, aguarelas e janelas que se abrem vendo o tempo passar, promessas e palavras renovadas, beijos e afectos, melodias poéticas onde se sentem braços em contratempo, princesas a quem se dá boa noite
Para terminarmos, gravitando pelo universo, a natureza e concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa, encontramos em Mário Neves o princípio da relacionalidade plena do universo (com a qual comungamos), unificando, nessa relacionalidade, a pluralidade de tudo o que existe, quer no que se refere à reciprocidade que se estabelece entre as coisas existentes, quer no que se refere à relação entre o conjunto dos entes finitos e o seu princípio fundante, terminando na noção clara da “douta ignorância”, como saber do não saber.
É isto que nos apraz dizer sobre o livro e o autor!       
         NOTA MÁXIMA!

Saturday, May 13, 2017

VIII Jornadas Internacionais de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental

Decorreram entre os dias 8 e 10 de Maio de 2017, na Sala de Conferências da Secção Regional de Coimbra do Centro de Documentação Farmacêutica da Ordem dos Farmacêuticos, as VIII Jornadas Internacionais de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental, nas quais participamos pelo quinto ano consecutivo, numa organização da Sociedade de História Interdisciplinar de Saúde-SHIS e colaboração (co-organização) científica e institucional do Grupo de História e Sociologia da Ciência e Tecnologia do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra-GHSCT-CEIS20, sendo de referir ainda o apoio e as colaborações das seguintes instituições: Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos, Tecnimede SA, Turismo Centro Portugal e Fundação para a Ciência e a Tecnologia – FCT. Fazem parte da Comissão Científica: Ana Leonor Pereira (Universidade de Coimbra, Portugal); António Carreras Panchón (Universidad de Salamanca, Espanha); João Rui Pita (Universidade de Coimbra, Portugal); José Morgado Pereira (Universidade de Coimbra, Portugal); Juan António Rodriguez Sanchez (Universidad de Salamanca, Espanha); Manuel Correia (Universidade de Coimbra, Portugal); Tania Fonseca (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil); Romero Bandeira (Universidade do Porto, Portugal). Na Comissão Organizadora há a destacar os Professores Doutores da Universidade de Coimbra: Ana Leonor Pereira (Presidente); João Rui Pita (Secretário científico); José Morgado Pereira e Victoria Bell.

Os rostos de toda a dinâmica e sucesso das JIHLPSM.

Na sequência das VII Jornadas realizadas em 2016, as Jornadas deste ano visaram dar continuidade a temáticas anteriores e autonomizar novos temas: A Loucura na História da Arte; A Loucura na Literatura e no Cinema; A Loucura nas Utopias Sociais; Fontes para a História da loucura, da psiquiatria e da saúde mental desde a Antiguidade clássica até à actualidade; História dos sintomas desde a Antiguidade clássica até à actualidade; Psiquiatria, neurologia, psiquiatria forense e medicina legal nos séculos XIX-XX; Ciências farmacêuticas e Saúde mental; Direito Biomédico, Pacientes e Saúde mental; Filosofia, psicologia, psicanálise e psiquiatria na actualidade; Serviços de saúde mental e psiquiatria – para uma história comparada na Europa e no Mundo; Psiquiatria e saúde mental no Serviço Nacional de Saúde: estruturas, conjunturas e experiências singulares.
Na impossibilidade de estarmos presentes em todas as sessões e conferências plenárias, procuraremos, na medida possível, transmitir toda a dinâmica interdisciplinar e objectivos das temáticas abordadas nestas Jornadas, que já vão na sua oitava edição. 

Rosário Neto Mariano e Joana Mestre Costa, estando ao centro o moderador José Morgado Pereira.

Joana Mestre Costa.

A tempo de assistirmos à 2.ª Sessão, moderada por José Morgado Pereira, começamos por ouvir Joana Mestre Costa, da Universidade de Aveiro, Docente – ISCA-UA, Investigadora Integrada – CLLC-UA, que trouxe ao debate «O Espaço da Literatura na construção de uma Psicopatologia: a partir da Archipathologia de Filipe Montalto», insigne representante dos chamados médicos-filólogos, nascido no seio de uma família cristã nova (mais tarde, de cristão novo passou a judeu), que deu à estampa, em 1614, uma obra alicerçada em sólidas fontes – que faz recuar à Antiguidade Clássica e que cobrem os pontos de vista médico, filosófico e literário. Através da Archipathologia, ao perscrutar a essência e as causas, os sinais e as curas das afecções do ânimo supôs auscultar os opera de Hipócrates, de Galeno ou de Avicena, mas também os de Platão ou Aristóteles e ainda os de Horácio ou de Ovídio; e na medida em que, na literatura, o seu autor pôde encontrar exempla complectivos dos testemunhos das autoridades médicas, cedeu aos vates crédito e lugar nas discussões da especialidade. A partir da proposta de Filipe Montalto e destacando as fontes literárias da Archipathologia, bem como os contextos e as finalidades das sucessivas menções, Joana Mestre Costa propôs-se explorar o espaço da literatura na construção de uma psicopatologia. Desta magnífica comunicação retivemos: A insânia dos amantes é um desassossego melancólico, motivado e dependente de um imoderado amor… A bebida deve ser vinho linfado, e mais, a embriaguez não imoderada pertence, por vezes, ao remédio. Ou, ainda, a cura do amor louco deve ser empreendida de imediato, antes que ele fixe raízes muito profundamente…

Rosário Neto Mariano.

A segunda comunicação da 2.ª Sessão coube a Rosário Neto Mariano, Professora Universitária da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, expressando a sua alteridade comunicativa, irrepreensivelmente científica, nas «Representações Culturais da Alteridade como Topos de Estranheza e/ou Patologia Mental», referindo que os estudos de Michel Foucault e de Ervin Goffman, como outrora as teorias de Augustin Cabanès e de Lombroso, mostram-nos, distintiva mas claramente, de que modos o lugar do Outro, enquanto portador de determinados traços de diferenciação psicológica, constitui, em numerosas representações culturais, um topos de estranheza e/ou patologia mental que propicia comportamentos sociais de estigmatização, segregação e rejeição, os quais acentuam as dificuldades de integração social e realização afectiva nos indivíduos que configuram essa alteridade “estranha” ou “patológica” em diversas representações culturais, da ciência à literatura e às artes em geral. Através da sua comunicação, Rosário Neto Mariano propôs-nos, de uma forma perfeita, um percurso analítico por algumas dessas representações culturais, mostrando simultaneamente como certas figurações literárias do topos em questão funcionam como verdadeiras metáforas da estigmatização sócio afectiva de certas formas de alteridade psicológica, em diferentes comunidades humanas. Apreendemos: A Ética da Saúde Mental é masculina… A mulher, o judeu, o artista… – O Louco.

Bárbara del Arco Pardo.

A 2.ª Sessão fechou com a comunicação de Bárbara del Arco Pardo, investigadora em formação no Departamento de Filosofia, Lógica e Estética, da Universidade de Salamanca, trazendo à discussão «A Loucura em Miguel de Unamuno: uma visão filosófica desde personagens literários atravessados pelo Trágico», acaba por nos alertar para o facto de que a obra de Unamuno se desenvolve a cavalo entre a filosofia e a literatura. Miguel Unamuno expressa suas convicções filosóficas, não tanto através das tramas narrativas das suas novelas e relatos, senão sobretudo mediante o retrato literário dos seus complexos personagens. Estes aparecem sempre representados como seres com um profundo problema interior, com um trágico conflito constante – diferente em cada caso – que se torna o centro da sua pessoa. E esses conflitos internos são tão intensos que sempre terminam por levar o personagem até seus próprios limites, roçando sempre a loucura… Mediante este procedimento, Unamuno mostra como a loucura em que terminam seus personagens não é um processo contingente, senão algo que levavam dentro de si desde sempre: Monomanias e não conflitos entre vários.

Luís Timóteo Ferreira.

A nossa atenção à exposição de Luís Timóteo Ferreira.

João Rui Pita.

Face ao adiantar da hora, passou-se de imediato à 3.ª Sessão de apresentação de comunicações, moderada por João Rui Pita, abrindo as “hostilidades” Luís Timóteo Ferreira, Professor do Ensino Básico e investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX-CEIS20, da Universidade de Coimbra, despertando-nos para as «Imagens da Loucura em Júlio Dinis: Valentina e Jacob Granada em Uma Flor d’Entre o Gelo (1864)», o que acabou por mostrar que a influência de concepções alienistas na obra de Júlio Dinis ainda não está devidamente estudada. Apesar de Gomes Coelho nunca ter exercido a clínica, sabe-se que foi um competente aluno que a custo chegou a professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, tendo regido a 11.ª cadeira – Higiene Pública e Medicina Legal, disciplina criada pela carta de lei de 26 de Maio de 1863 – em substituição de José Frutuoso Aires de Gouveia Osório. Através desse artigo, Luís Timóteo Feireira acabou por explorar a controvérsia médica e filosófica da etiologia moral e psicológica das doenças mentais que transparece no conto Uma Flor d’Entre o Gelo, publicado em folhetim, no Jornal do Porto, entre 29 de Novembro e 7 de Dezembro de 1964, onde Gomes Coelho revela indícios cruciais para a compreensão alargada do pensamento do escritor e médico.

Altura da nossa comunicação.

Falando de Maria Gomes Pereira (1882-1950)

João Rui Pita atento à nossa dissertação sobre a «Arte e os limites da Loucura em Maria Pomba»

Na hora do debate: Luís Timóteo Ferreira, João Rui Pita (moderador) e nós. 

A segunda comunicação coube-nos a nós (Porfírio Pereira da Silva), que ao abordarmos «A Arte e os limites da Loucura em Maria Gomes Pereira (1882-1950)», acabamos por explorar o facto de Maria Gomes Pereira ter nascido em Santa Maria de Carvoeiro, ao tempo em que pouco ou nada se ligava à arte popular. Enquadrada numa época de baixo nível económico, assim como martirizada pela falta de alfabetização, Maria, pobre de bens materiais e sem qualquer tipo de ambição para além da sua realização pessoal, num mundo em que tal comportamento cognitivo se entendia uma mania consequente do pouco abono de siso, cedo descobriu a sua inclinação para o lado místico. Desfazendo-se dos parcos bens de seus pais, como forma de se livrar de um pesadelo que a consumia, depressa se tornou mendiga, deambulando pelos montes da cercania, onde dormia na companhia de uma pomba, circunstância que levaria a ser rebaptizada pelo povo de Maria Pomba. Não podendo comunicar doutro modo, esculpia, burilava a pedra e a madeira, imprimia nos relevos os sentimentos mais íntimos, nem sempre entendíveis. Era tida por quase toda a gente como uma atrasada mental, e pelos mais tolerantes, portadora de uma certa leveza de inteligência. Os comportamentos loucos sempre foram permitidos nas sociedades, havendo, contudo, um sistema de normalização desses comportamentos, dominando os corpos e as manifestações corporais, porque eram capazes de serem incluídos dentro do campo dos excluídos, como se outra face do mundo e dos corpos fossem necessários para justificar e dar sentido à normalidade. As teorias de Erving Goffman (com o ‘estigma’), de Michel de Foucault (com o biopoder), e de Norbert Elias (O processo civilizacional) contextualizam este processo de vigilância dos corpos, de domínio do ‘anormal’, de controlo e privação da violência para se construir a sociedade civilizada. Maria Pomba tinha tudo para ser excluída! Sendo pobre, sem ocupação clara e reconhecida, e à margem dos comportamentos ditos normais, era relativamente fácil construir sobre ela narrativas que tivesse a loucura como base de definição da sua personalidade.

Pausa para o almoço.

José Morgado Pereira preparando a sua "Conferência Plenária"

José Morgado Pereira dissertando sobre «A Psiquiatria em Portugal (1884-1924)»

Ana Leonor Pereira, moderadora na "Conferência Plenária" de José Morgado Pereira.

Com intervalo para o almoço, da parte da tarde as Jornadas iniciaram-se com a conferência plenária – tendo como moderadora, Ana Leonor Pereira – de José Morgado Pereira, Médico Psiquiatra e investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX-CEIS20, da Universidade de Coimbra, que nos fez uma pequena retrospectiva sobre «A Psiquiatria em Portugal (1884-1924)», cujo objectivo do trabalho foi o estudo da psiquiatria portuguesa no período da sua institucionalização, balizada entre 1884 e 1924, datas em que se publicaram obras que marcaram a evolução científica desta especialidade. O trabalho é influenciado pela obra de German Berrios, que tem levado a cabo uma história conceptual, construindo uma história cultural da psicopatologia. Destaque para a reforma de 1911 e o início do ensino oficial da psiquiatria. Quanto aos protagonistas, na primeira fase são dominantes Miguel Bombarda e Júlio de Matos, arautos de correntes científicas e filosóficas oitocentistas e na segunda fase do período em análise Egas Moniz e Sobral Cid. Da abordagem das doenças analisadas resulta uma pluralidade evolutiva, falando-se de doenças, síndromes, sintomas e patologizações, justificando uma perspectiva construcionista. Nas terapêuticas destaca-se a importância central do asilo, e o tratamento moral é objecto de análise, tal como a hidroterapia. Inicialmente muito ligada à fisiologia e à anatomopatologia, a psiquiatria vai lentamente reconhecendo a importância duma abordagem psicológica e depois do movimento psicodinâmico, já se vislumbrando no final do período a atenção a formas mais diversificadas de acolhimento institucional e uma visão biológica mais integradora. Em suma, o objectivo foi bem claro: Estudo da Psiquiatria Portuguesa, em termos de uma história conceptual, no período da sua institucionalização, que entendi balizar entre 1884 e 1924,quando se publicaram obras que marcaram a sua progressiva evolução científica, num período crucial para o seu desenvolvimento, marcada por aparentes continuidades, em aspectos sociais, políticos e culturais.
  
Manuel Curado.



Manuel Curado, sob o olhar atento de Manuel Correia (moderador)

Manuel Curado, Professor da Universidade do Minho, abriu a 4.ª Sessão de apresentação de comunicações, tendo como moderador Manuel Correia. O tema trazido por este ilustre professor incidiu sobre a «Representação Literária da Loucura no Portugal Oitocentista», considerando tratar-se de um subsídio, tendo em conta que, no seu entender, a história da representação literária da loucura em Portugal está por fazer. A comunicação teve por objectivo contribuir com esse mesmo subsídio para esse objectivo, ocupando-se de alguns títulos da literatura oitocentista portuguesa, nomeadamente os contos “Uma Loucura”, de Luís Filipe Leite, e “A Louca de S. Cristóvão”, de José Maria de Andrade Ferreira; e os romances “Memórias de um Doido”, de A. P. Lopes de Mendonça, “Cláudio”, de Júlio César Machado, “A Doida do Candal”, de Camilo Castelo Branco, “A Filha do Jorge (Misérias Burguesas)”, de Lino de Macedo, “Amor Divino”, de Teixeira de Queirós, e “Malucos?”, de Alfredo Gallis. A sua proposta foi no sentido de uma categorização dos grandes temas da representação literária da loucura, nomeadamente o corpo teórico que subjaz à narrativa, a etiologia da condição alienada, a relação com instituições (asilo, manicómio, hospital) e indicações clínicas (contenção, remédios). Pena foi que não houvesse tempo para abordar todos os títulos e autores propostos.

M. A. Miguelez Silva.

A segunda comunicação da 4.ª Sessão, num trabalho de grupo dos Médicos Psiquiatras, M. A. Miguelez Silva, M.ª J. Louzao Martinez e T. Angosto Saura; da Enfermeira especialista em Saúde Mental, M. Piñeiro Fraga; e da Médica em formação, A. R. dos Santos Rocha, abordou o tema de «Fernando Pessoa, os Psiquiatras e a Loucura». O objectivo desta comunicação foi o de demonstrar que o poeta Fernando Pessoa teve uma especial preocupação pela doença mental em geral e pela sua possível loucura em particular. Em relação a este tema realizou múltiplos escritos, a maioria deles sem publicar na época mas que foram editados recentemente. Segundo M. A. Miguelez Silva, em representação do grupo de trabalho, afirmou que na análise destes documentos, podemos observar que teve uma relação ambivalente com a psiquiatria e os psiquiatras da sua época. Estudamos em que se baseiam estas relações ao mesmo tempo que investigamos as fontes dos conceitos psiquiátricos utilizados pelo poeta na sua obra, tanto para diagnosticar as suas personagens heterónimas como para autodiagnosticar-se.

António de Vasconcelos Nogueira.

António de Vasconcelos Nogueira, colaborador-investigador do Centro de Línguas, Cultura e Literaturas da Universidade de Aveiro, debruçou-se sobre «O De Profundis de José Cardoso Pires: Exercício Metaliterário sobre a Memória e o Autoconhecimento», sendo que a sua comunicação acabou por explorar pistas de leitura do De Profundis: Valsa Lenta, do autor da Balada da Praia dos Cães, no âmbito da literatura portuguesa (questionar o género literário, a escrita como terapia, a autonarrativa e a memória) e da Medicina Narrativa (relato autopatográfico, biografia da doença), com aportes das neurociências (AVC, amnésia, afasias, reabilitação neuropsicológica) e da filosofia (o eu, a dúvida, o conhecimento de si, a condição humana). Questiona a construção do eu associado à perda da memória e sua reabilitação, “o Outro de mim”, e à noção do tempo, num cenário de luz e sombras, de vozes, que irrompem da primeira à terceira pessoa do singular, na narrativa.

Celia García Díaz.

Celia García Díaz e Manuel Curado.

M. A. Miguelez Silva, António de Vasconcelos Nogueira e Manuel Correia (moderador)

A quarta e última comunicação da 4.ª Sessão coube a Celia García Díaz, Médica Psiquiatra do Hospital Clínico Universitário de Málaga. De salientar que a mesma comunicação teve a parceria da Médica Psiquiatra do Hospital Universitário Insular de Las Palmas de Gran Canaria, Laura López Alonso. O tema trazido a estas Jornadas teve por base a convulsiva vida da mulher, escritora e louca, Jane Bowles, e sua relação com os Manicómios de Málaga (1917-1973). A 4 de Maio de 1973 faleceu em Málaga Jane Bowles, escritora nova-iorquina casada com Paul Bowles que fez parte do movimento boémio de Greenwich Village. Sua obra foi escassa, porém intensa, como sua vida, conhecida não só pela sua produção escrita, mas também pelo uso de drogas e sua bissexualidade. Depois de casar-se, foi viver com seu marido para Marrocos. Acometida por sintomas persecutórios e sua adição ao álcool, frequentou numerosas clínicas psiquiátricas, até que, finalmente, ingressou em Málaga, no Asilo de los Ángeles, onde foi tratada por Pedro Ortiz Ramos. Através deste trabalho, Celia Díaz e Laura Alonso pretenderam mostrar até que ponto a vida da escritora impregnou a sua obra, como os seus escritos adquiriram um significado diferente se analisados desde uma perspectiva de género e a teoria de Laing sobre a esquizofrenia e, por último, sua passagem por várias instituições psiquiátricas malaguenhas.

Francisco Molina Artaloytia.

Depois de um breve intervalo para um Coffee, por volta das 17 horas, iniciaram-se os trabalhos da 5.ª Sessão de apresentação de comunicações, tendo como moderador Manuel Curado. Na primeira comunicação, Francisco Molina Artaloytia, Assessor Técnico da Secretaria Geral de Educação (Extremadura espanhola) e Professor-Tutor de Lógica, História e Filosofia da Ciência, centrou a sua abordagem na investigação sobre a medicina e a homossexualidade em Espanha e Portugal durante grande parte do século XX, acabando por tentar provar que se produz com certa frequência uma “tensão” com certos discursos activistas quando se intenta caracterizar a teoria e práticas médicas ibéricas em relação com as existentes noutros países então “democráticos”.

Ricardo Campos.

A segunda comunicação coube a Ricardo Campos, Científico-Titular do Departamento da Ciência, do Instituto de História de Madrid (CSIC), que quase como em complemento à comunicação anterior, abordou a «Loucura, anormalidade e homossexualidade em Espanha (1970-1979): A Lei de Perigosidade e Reabilitação Social de 1970», com o objectivo de analisar a visão da loucura, a anormalidade e a homossexualidade em Espanha durante esta mesma década; dos legisladores e da psiquiatria académica, assim como sua aplicação, em relação aos doentes mentais, os anormais e homossexuais, considerados como sujeitos perigosos num contexto histórico de convulsões e transformações políticas.

Rafael Huertas.

Rafael Huertas, ladeado por Manuel Curado (moderador)

Seguiu-se Rafael Huertas, Professor-Investigador do mesmo Departamento e Instituto de História de Madrid (CSIC), que vincularia a sua comunicação à «Psiquiatria, antipsiquiatria e pensamento reaccionário em Espanha: Los renglones torcidos de Dios (1979)», uma publicação de Torcuato Luca de Tena, que teve um inegável êxito por parte do público e da crítica. Los renglones torcidos de Dios, escrita e publicada durante os primeiros anos da Transição democrática, trata-se de uma novela que pode considerar-se como uma fonte de interesse para apreciar o impacto de uma nova “cultura psiquiátrica” que, a par do movimento antipsiquiátrico e das “lutas psiquiátricas” do tardo franquismo, começava a surgir em Espanha com força. Novidades que geraram resistências desde as posições mais conservadoras, como as que o autor e a novela representam. Para Rafael Huertas, esta obra de ficção foi capaz de reflectir a realidade manicomial em Espanha dos anos setenta num contexto de profundas abordagens culturais em torno da loucura.

Filomena Girão.

Debate da 5.ª Sessão de apresentação de comunicações, moderada por Manuel Curado.

A 5.ª Sessão de apresentação de comunicações terminou com «O Transtorno de Personalidade Bordelina – entre a Capacidade de Discernimento e a Doença Mental», uma interessante comunicação, tendo em conta que o estudo foi feito por duas mulheres ligadas à advocacia, Filomena Girão e Marta Frias Borges. Seria Filomena Girão a dar voz ao trabalho conjunto: «A personalidade é definida pelo Diagnostic and StatisticalManual of Mental Disorders (DSM-V) como um conjunto de “padrões duradouros de perceber, relacionar-se e pensar, envolvendo o ambiente ao redor e a si mesmo”. Sucede que, por vezes, o comportamento do indivíduo se desvia acentuada e persistentemente das expectativas da sua cultura, caso em que estaremos perante as designadas perturbações/transtornos de personalidade. Entre os diversos tipos de perturbações da personalidade, atribuímos, na presente reflexão, particular importância à personalidade Borderline, tomada como o “padrão de instabilidade nas relações interpessoais, na auto-imagem e nos afectos, com impulsividade acentuada”, que, em razão das rápidas mudanças de humor, se apresenta como o comportamento limítrofe entre a lucidez e a incapacidade, é que, s.m.o., reclama adequadas soluções de protecção jurídica. Sucede que o diagnóstico de perturbação de personalidade não se afigura, por si, suficiente para determinar a incapacidade jurídica do indivíduo, que pressupõe “estado de anomalia psíquica”. De facto, não se traduzindo num comportamento persistente e duradouro, mas caracterizando-se antes por uma natural instabilidade, as perturbações de personalidade nem sempre são susceptíveis de integrar o conceito de anomalia psíquica e, por conseguinte, de fundamentar o recurso aos institutos de interdição ou inabilitação…» Na perspectiva deste estudo, impõe-se, assim, uma reflexão quanto à (in)suficiência dos institutos jurídicos da interdição e inabilitação para fazer face às características de certas perturbações de personalidade – designadamente, da personalidade Borderline –, que, porventura momentâneas, limitam amiúde e enormemente a capacidade de discernimento e determinação do indivíduo.

Jantar no Gauchão.

O debate continuou pela noite dentro, no jantar servido a preceito na Churrascaria Gauchão, condimentado pelos sabores e degustação tropicais.

David Simón Lorda.

Logo pela manhã do dia 9 de Maio, segundo dia das Jornadas, teve lugar a 6.ª Sessão de apresentação de comunicações, moderada por Tiburcio Angosto Saura, iniciada por David Simón Lorda, Médico Psiquiatra do Complexo Hospitalário de Ourense, do qual fazem parte, ainda: Jessica Otilia Pérez Triveño, Cristina Carcavilla Puey, Manuel Fernández de Aspe, Elisabeth Balseiro Mazaira e María Victoria Rodríguez Noguera, abordando as «Loucuras puérperas (Psiquiatria, Medicina e Cultura na Galiza, 1875-1975)», expondo e contextualizando os dados encontrados acerca de casos de Loucuras puérperas (o psicosis puerperales) na Galiza até finais do século XIX e primeiros anos do século XX. Alguns destes casos necessitaram ser atendidos na instituição hospitalar manicomial de Conxo, em Santiago. David Simón Lorda abordou conceitos e nosologia das psicoses puérperas na psiquiatria, concepções populares/culturais respeitantes a enfermidade mental no puerperal, realçando assim alguns trabalhos científicos e antropológicos acerca das psicoses purpúreas por autores de referência da psiquiatria galega do século XX, de que é exemplo o Dr. Manuel Cabaleiro Goás, Ourense em 1955.

Bruno Barreiros.

Seguiu-se Bruno Barreiros, Investigador Integrado (CHAM – FCSH/NOVA – UAC), que abordou a questão «Nas Fronteiras da Razão: A noção de Alienação Mental na Literatura Médica do Século XX», sendo que, no dizer de Bruno Barreiros, poucas obras geraram tão diversificado debate como o Tratado Médico-Filosófico sobre a Alienação Mental de Philippe Pinel (1745-1826), trabalho centrado na experiência clínica e administrativa do autor nos hospitais de Bicêtre e da Salpêtrière. Obra publicada pela primeira vez em 1801, e republicada com alterações significativas em 1809, o Tratado foi considerado, após os trabalhos seminais de Foucault, Gauchet e Swain, como o momento histórico definitivo de consagração da reclusão e da violência enquanto princípios de tratamento da loucura e de organização dos sistemas asilares. Visando suscitar a controvérsia, Bruno Barreiros procurou reequacionar esta leitura e os fundamentos históricos e epistemológicos que lhe subjazem. A sua intenção foi pois restaurar o significado profundo da inovação pineliana quer no plano teórico-nosológico (sistematização rigorosa do conceito de alienação mental, atenção detalhada à história clínica do paciente), quer no plano prático, onde o autor procurou reformar os tratamentos ministrados aos alienados, conferindo-lhes forte impulso filantrópico e personalista.

João Feliz.

A terceira comunicação da 6.ª Sessão esteve a cargo de João Feliz, Médico Interno de Psiquiatria, U. L. S. Guarda, coadjuvado no trabalho por Pedro Sales, Médico Interno de Psiquiatria, Hospital Garcia de Orta; Guilherme Bastos Martins e João Cardoso, Médicos Internos de Psiquiatria no Hospital Fernandes da Fonseca e Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, abordando a questão de «Geel: uma Colónia de Alienados», sendo que Geel, cidade situada na Flandres, é conhecida pela generalidade do mundo psiquiátrico como modelo de tradição ímpar nos cuidados prestados a pessoas acometidas por doenças mentais, desde o séc. XIII. Este modelo consiste na distribuição de doentes mentais por famílias de acolhimento, que receberiam uma quantia fixa pela responsabilidade do cuidado prestado. Ao longo do século XIX, Geel é visitada por psiquiatras eminentes (Esquirol, Moreau de Tours, Falret, Guislain) e, logo após a medicalização da Loucura e instituição do hospital/asilo psiquiátrico como modelo de cuidado, despoleta-se a “Questão Geel” entre alienistas proponentes e detractores do sistema praticado em Geel. Esta questão apenas será sanada no Congresso Internacional de Psiquiatria realizado em Antuérpia, em 1902. Em 2002, o modelo Geel é reconhecido como “melhor prática” no relatório da OMS “Mental Health. New Understanding. New Hope”.

Jorge Mota.

Seguiu-se Jorge Mota, Assistente Hospitalar de Psiquiatria (Unidade de ECT, Hospital de Magalhães Lemos, Porto) e Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Electroconvulsivoterapia, que acaba por centrar a sua comunicação na «História da Electroconvulsivoterapia: Do Egipto a Roma», salientando o facto que, desde que os egípcios reconheceram a existência do fenómeno da electricidade há cinco mil anos, esta foi usada por diversas culturas com fins terapêuticos mágicos, punitivos, ou analgésicos, usando fontes bioeléctricas como o peixe-gato do Nilo ou a raia-torpedo. O advento da electricidade industrial e da corrente alterna substituiu a electroterapia de corrente contínua por uma ferramenta de investigação científica, dando origem à faradização e às investigações neurofisiológicas que levariam à epilepsia experimental. Do cruzamento da convulsivoterapia e da epilepsia experimental, nasceria em 1938 em Roma a electroconvulsivoterapia que, após décadas de abusos, sofreria em 1976 a transformação numa técnica moderna reinventada em 2003 com as novas máquinas de micropulsos de corrente constante.

Nuno Borja-Santos.

Luís Afonso Fernandes.

Debate da 6.ª Sessão de apresentação de comunicação, moderada por Tiburcio Angosto Saura. 

A última comunicação da 6.ª Sessão esteve a cargo Nuno Borja-Santos, Médico, assistente graduado de psiquiatria no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, sendo coadjuvado no trabalho de investigação pelos Médicos internos de psiquiatria no mesmo Hospital, Guilherme Bastos Martins, Vera Dindo e Luís Afonso Fernandes. O tema do estudo centrou-se em «D. Duarte, primeiro psicopatologista português», que após uma breve nota biográfica acerca do Rei D. Duarte, reportam-se algumas passagens da sua obra, “Leal Conselheiro”, exemplar da literatura moralista e prática da Idade Média, dando destaque a algumas situações psico(pato)lógicas descritas, que hoje designaríamos por síndromas, como o narcisismo (“soberba”), o luto (“nojo”) ou a depressão (“humor merencórico”). A propósito desta, sublinha-se o seu caso, por ele descrito, que se teria iniciado com uma fase não voluntária de hiperactividade (motivada pela substituição temporária das funções régias do seu pai, D. João I, que se ausentara para a conquista de Ceuta), a que se seguiu uma outra de depressão cuja sintomatologia é traçada minuciosamente, mas em que a indissociabilidade com que descreve os dois quadros faz não só lembrar o actual conceito de doença bipolar, como uma tese acerca da mesma, explanada por Koukopoulos em The Primacy of Mania. Durante o debate, foi apontada a opinião presente de Daniel Sampaio e Lobo Antunes que consideram D. Duarte, pelo seu lado melancólico e dupla polaridade de humor, maníaco-depressivo.


Tânia Sofia Ferreira.

Depois de um pequeno intervalo para Coffee, altura em que se procedeu ao lançamento da obra “VII Jornadas Internacionais de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental”, seguiu-se a 7.ª Sessão de apresentação de comunicações, moderada por Nuno Borja-Santos, abrindo com «O Tratamento Moral em Júlio de Matos», comunicação essa apresentada por Tânia Sofia Ferreira, Mestranda em História Contemporânea, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que acabou por nos lembrar que no entender de Júlio de Matos, tratar o alienado como se fosse um “homem são de espírito”, com quem seria possível estabelecer um diálogo coerente, de modo a convencê-lo da falsidade das suas convicções, era “tempo inutilmente gasto”. Neste âmbito, o tratamento moral, preconizado por W. Tuke em Inglaterra e por Pinel em França, em finais do século XVIII, que assentava no reconhecimento de um fundo de razão no alienado e, por isso, na possibilidade de uma terapêutica assente num diálogo benévolo e persuasivo com o doente, evitando assim os meios repressivos, não tem qualquer acolhimento por parte do alienista português, para quem este meio terapêutico não passava de um “capítulo falso de psiquiatria, felizmente esquecido”. Este trabalho teve como objectivo analisar os fundamentos da rejeição e o consequente entendimento que Júlio de Matos faz deste meio terapêutico no Manual das Doenças Mentais (1884) e Elementos de Psiquiatria (1911).

Manuel Correia.

A segunda comunicação da 7.ª Sessão foi apresentada por Manuel Correia, Investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Seculo XX-Universidade de Coimbra-CEIS20-UC e um dos maiores especialistas de Egas Moniz, com o «Curso de Ciências do Sistema Nervoso no Hospital Júlio de Matos (1986): Subsídios para a História da Psicocirurgia», revelando-nos a sessão de encerramento do “1º Curso de Ciências do Sistema Nervoso” que decorreu no Hospital Júlio de Matos (hoje Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa) em 21 de Junho de 1986 foi dedicada à Psicocirurgia. O registo vídeo dessa sessão foi preservado e constitui uma fonte histórica relevante a vários títulos. Testemunha o declínio da prática de leucotomias e lobotomias, e do desinteresse relativo a que o método foi votado; põe em confronto as diferentes posições e atitudes existentes à época; e documenta a intervenção de vários actores estreitamente associados à prática da leucotomia: Barahona Fernandes, Pedro Polónio, psiquiatras que acompanharam a génese e o declínio do método, e Martin Rodriguez, neurocirurgião do Centro Especial Ramon y Cajal, Madrid, activo apoiante e dinamizador da prática da Psicocirurgia. Comentando alguns aspectos específicos do conteúdo Manuel Correia apontou a singularidade histórica deste documento.

Jessica Otilia Pérez Triveño.

Antes de regressarmos a Viana do Castelo, por imperativo profissional, ainda tivemos tempo de ouvir as três comunicações da 8.ª Sessão, moderada por Pedro Macedo, iniciada por Jessica Otilia Pérez Triveño, fazendo parte da equipa do Médico Psiquiatra David Simón Lorda, com Cristina Carcavilla Puey, Rosana Ortiz Soriano, Manuel Fernández de Aspe e Elisabeth Balseiro Mazaira, com o tema «Gripe, Medicina e Psiquiatria na Galiza, 1875-1975», tendo em conta que na Galiza neste período, coincidiu com epidemias gripais, aparecendo casos que foram diagnosticados como psicoses gripais ou pós-gripais.

Joana Quelhas.

Seguiu-se a comunicação de Joana Quelhas, do Centro de Estudos de Antropologia Social, com «O outro lado do espelho: dois Diários de Egas Moniz, 1954-1955 (Espólio de Joaquim Seabra Dinis)», que acabam por revelar reflexões do pensador, do político, do médico, em retirada. Para quem o conheceu através de uma obra em que também se soube autobiografar, uma surpresa. Segundo Joana Quelhas, aqui deparamos com um homem mais retirado, mais livre, menos comprometido lançando uma escrita para si mesmo, crítica, um texto consciente que provavelmente será um dos seus últimos – como confessa – e não imediatamente publicável. Uma preciosa revelação: design “o outro lado do espelho” a esta reflexão a partir da memória crítica dum lugar livre quem restou a cor da leitura lucida. Estes dois Cadernos, titulados como “Os meus 80 anos” e “O prémio Nobel” redigidos entre esperas de consultas, plenos de memórias e previsões, permitem-nos destacar o registo intimista, mais livre, por comparação a todo o anterior discurso que até então nos legara.
Por fim, a terceira e última comunicação da 8.ª Sessão, proferida pelo Médico Psiquiatra do Hospital Vithas N.ª S.ª de Fátima (Vigo), Tiburcio Angosto Saura, coadjuvado na investigação por M. Piñeiro Fraga, M.ª J. Louzao Martinez e M. A. Miguelez Silva. A comunicação andou à volta do «Pintor Laxeiro e os Loucos Populares».
Regressamos de Coimbra cansados, mas revigorados. Faz sentido, cada vez mais, questionar os limites da loucura, o reconhecimento de um fundo de razão nos alienados e/ou estigmatizados, permitindo, através do diálogo benévolo, a tolerância aos julgamentos precipitados que nos conduzem à exclusão pela diferença de género, mesmo quando há uma relação entre a loucura construída pela sociedade sobre um comportamento anormal e a expressão artística, vinculando a Ética na Saúde Mental ao masculino (Rosário Neto Mariano). Obrigado à Comissão Científica da «Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde - SHIS» pelo incentivo e pelo repto lançado para o ano de 2018. Aumenta assim a nossa responsabilidade, principalmente quando as próximas Jornadas vão dar lugar a um Congresso Internacional.
        Sapiens nihil facit invitus!