Monday, April 17, 2017

VIII JORNADAS INTERNACIONAIS DE HISTÓRIA DA LOUCURA, PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL

As «VIII Jornadas Internacionais de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental», nas quais participamos pelo quinto ano consecutivo, numa organização da "Sociedade de História Interdisciplinar de Saúde-SHIS" e colaboração (co-organização) científica e institucional do "Grupo de História e Sociologia da Ciência e Tecnologia do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra-GHSCT-CEIS20", terão lugar em Coimbra, na Sala de Conferências da Secção Regional do Centro de Documentação Farmacêutica da Ordem dos Farmacêuticos, entre os dias 8 e 10 de Maio de 2017. Aqui fica o Programa completo:


Tuesday, April 04, 2017

«P’ra que Viva Ponte de Lima! Terra de Tradições…» com e em Amândio Sousa Vieira!...



«Ninguém ama verdadeiramente aquilo que não conhece. A sabedoria dessa frase comum aplica-se também à área da Cultura, domínio muito vasto, complexo e evolutivo, alvo frequentemente de nefastas concepções equivocadas e de redutoras ideias-feitas...»

José Cândido de Oliveira Martins

Sem dissimulações, começaremos por dizer que o nosso particular amigo Amândio Sousa Vieira acaba de publicar, felizmente com a anuência do Município Ponte-limense, uma obra de grande fôlego. Não fosse a sua exacerbada modéstia, não estaríamos aqui a discorrer no sentido de parafrasear José Cândido Martins, ilustre docente da Universidade Católica Portuguesa, quando afirma por escrito – sim, as palavras ditas leva-as o vento –, tirando-nos as palavras da boca, por delas concordarmos e subscrevermos, que «estando profundamente enraizada no passado e na memória das gentes, essa opulenta e multifacetada tradição, que nos moldou antropológica e culturalmente, impõe dois desafios fundamentais: o do mais amplo conhecimento desse legado, que tende a desaparecer com a passagem das gerações e a fatídica erosão temporal; e o da valorização e salvaguarda desse património, através da adopção de iniciativas e políticas variadas, desde logo a nível local e autárquico…», terminando com a consciencialização da relevância do tema e do papel desempenhado por este ilustre limiano, de seu nome completo, Amândio Amorim de Sousa Vieira.


Quase que poderíamos ficar por aqui, não fosse a desedificada perturbação de alguns fazedores (tomando-nos de novo pelas palavras de José Cândido Martins) de “nefastas concepções equivocadas e de redutoras ideias-feitas”, mas a nossa percepção, porque equidistante da sensação e da intuição intelectual, obriga-nos a remover os engulhos dos pseudo-intelectuais e/ou serviçais de circunstância. Daí, para nós, a percepção assentar na apreensão directa de uma situação objectiva, suprimindo os actos intermédios: Amândio Sousa Vieira não é um fotógrafo mas um Artista da Imagem. Ponto final.
Falando agora da obra «P’RA QUE VIVA PONTE DE LIMA! TERRA DE TRADIÇÕES», começaremos pelo sentido estético, a experiência que comporta uma forma fácil de relacionarmos a imaginação e a acção do sujeito com o objecto, diremos que estamos perante uma obra perfeita. A partir daqui podemos ainda relacionar, como um dia escreveu o nosso amigo/filósofo italiano, Mario Perniola, a estética da vida e estética da forma (verdade estética e auto-referencialidade), se tivermos em linha de conta a vida e a acção cognitiva de Amândio Sousa Vieira, com a sua experiência, representação, síntese de sensações e pensamentos. Só assim, e tomando como referencial todas as suas obras anteriores, poderemos chegar a essa conclusão: o essencial da experiência estética é a objectivação (George Santayana).
Quanto ao conteúdo, porque de Tradições se trata, e, segundo este ilustre limiano, “P’ra Que Viva Ponte de Lima” é fundamental divulgar e defender tudo o que possa engrandecer a sua longa e rica história, o efeito do produto final acaba por reflectir a paixão, a interpretação, a seriedade e o percurso de uma vida pautada pelo sentido estético, atrás referido, e ético em Amândio Sousa Vieira – acrescentamos nós. Os agradecimentos, as referências e a extensa bibliografia atestam, só por si, o rigor científico, aliado à paixão, interpretação e seriedade, para lhe conferirmos o sentido ético, a boa maneira aristotélica, porque firmado na ciência prática tendo por assunto os actos do Homem enquanto Ser possuidor de razão, e por objectivo a virtude na condução da vida. E creiam-nos que não estamos a exagerar, quando falamos assim de Amândio Sousa Vieira, tendo em conta que nada devemos um ao outro.


Obra profusamente ilustrada com mais de 400 ilustrações, sendo que as fotografias actuais, nomeadamente as de a partir de 1980, são do autor. As mais antigas pertencem a vários arquivos, públicos e privados (assinalando as que foi possível), fazendo questão de salientar que todos os desenhos, pinturas e gravuras estão devidamente identificados, razão pela qual aludimos à seriedade intelectual e gratidão de Amândio Sousa Vieira, principalmente quando se refere, para além das pessoas e instituições citadas em “Agradecimentos”, a Joana Caçador e Mariana Quintela, pelo precioso contributo dado a esta magnífica obra.
Poderíamos embarcar na veleidade de reduzir a nossa apreciação à já recalcada teorização, quase sempre injusta e desajustada, de que tudo isto nasceu de um embrionário hobby ou mero passatempo de recolhas avulso, quando sabemos não ser bem assim. Pelo menos, e tendo a noção de que o inato e o adquirido parecem estar interdependentes (não fazendo, por isso, qualquer sentido procurar medir as partes respectivas de um e de outro), memorialistas discretos como o Amândio Sousa Vieira não são bem assim nem para lá caminham.
Os textos da sua autoria que se repartem por seis capítulos: Capítulo I – Baile da Espadelada; Capítulo II – Vida no Campo; Capítulo III – Feiras; Capítulo IV – Festas e Romarias; Capítulo V – Outras Tradições; Capítulo VI – Ranchos e Rusgas; falam por si. E quando as palavras são ditas e escritas assertivamente, apenas teremos que as tomar como emprestadadas, por preito e gratidão: O interesse de Amândio Sousa Vieira pelas tradições e costumes de Ponte de Lima reflecte no fundo a paixão de uma vida (…). O seu vasto arquivo é a melhor prova disso. Um amante anda sempre à procura da coisa amada… – citamos da “Introdução” de José Velho Dantas.
Amândio Sousa Vieira acaba de prestar um valiosíssimo serviço à reconstituição das tradições e da etnografia da região que ele mesmo tanto ama, levando-nos a relacioná-las (Ex auctoritate propria) com as diversas expressões da vida social, artística e identitária.       
        NOTA MÁXIMA!

(In, Cardeal Saraiva, Ano 108, N.º 4647, 30 de Março de 2014, p. 16 - "Ao correr da pena e da mente" - 175) 

Monday, February 20, 2017

«O Rasto da Memória» em Domingos da Calçada!...



«O “Rasto da Memória” é um testemunho das pegadas deixadas pela minha gente na caminhada sacrificial neste Vale de Lágrimas; uma tentativa de tornar perene a sua presença na nossa recordação.»

Domingos da Calçada

Embora peque por tardia, esta crónica devemo-la há mais de seis meses, altura em que o SIR (preferimos ao estatuto português de “Comendador”) Domingos da Calçada foi agraciado pela sua Terra Natal com o título Cidadão de Honra, homenagem mais que justificada e perenemente justa pelos seus inegáveis méritos em prol da sua terra e de todo o vasto Vale do Neiva. Dois anos antes, como fizemos questão de salientar em anterior apontamento, foi publicamente homenageado, por altura da XXXII Feira do Livro de Barcelos, pela edilidade barcelense, na pessoa do seu presidente Miguel Costa Gomes, com o Grau Prata, Medalha de Mérito Cultural. Nesse mesmo dia, com a anuência da «Tertúlia Barcelense», foi dada à estampa «Poemas Tardios», pérola da poética regional, porque genuína, perfeita, sentida e saída do espelho da alma.


Acautelamos essa primazia de entrarmos no “rol” dos convidados de honra para assistirmos à “coroação” pública do melhor memorialista que conhecemos até hoje, para darmos a mão à palmatória dessa repreensível falha, apenas atenuada pelas circunstanciais fragilidades humanas, condicionados por contratempos físico-motores de um dos membros superiores.
 Como já em tempos idos escrevemos (Junho de 2013), a propósito de uma magnífica obra intitulada “Gente do Vale”, obra que premiaria a importância e a preponderância memorialista de Domingos da Calçada, um dos maiores – senão o maior – contistas que conhecemos até à presente data, penitenciamo-nos dessa falha para falarmos do seu último brado, aberto à preservação aristotélica do conteúdo original da Poética e da história (sem estórias) e subsequente ligação à tradição local, no rasto da sua memória, tornado o título vinculativo à mestria deste extraordinário memorialista.
«O Rasto da Memória», mais uma vez editado sob a chancela da Calígrafo, eminência consentida por Fernando Pinheiro, um dos editores mais sérios, homem culto e extremamente rigoroso na qualidade das suas escolhas (no que toca à escrita e aos seus autores), reforça os atributos de exímio (peculiar, até) contista e cronista que há em Domingos da Calçada. Mantem-se o registo do acto perfeito da criatividade memorialista e literária de Domingos da Calçada, evidencia-se também na composição dos enredos, harmonizada pelo bem doseado antagonismo maniqueísta, que nos leva a subscrever as palavras do autor: E cada história tem a sua fisionomia. Há umas que não merecem ser esquecidas e outras que o não devem; apesar das notórias diferenças entre o bem e o mal, todas legaram testemunhos que devemos aproveitar. É um maniqueísmo que não fere, porque desprovido de “escárnio & mal dizer”, mas que ajuda a depurar personagens, espaços físicos, comportamentos psico-emocionais e utensílios que fazem história. 
 

Torna-se bem claro que não iremos falar dos contos e das crónicas que dão corpo a este (O) rasto da memória, porque ao fazê-lo incorreríamos no acto obstrutivo para com o leitor. Ninguém quererá comprar um livro ou ver um filme que alguém precipite antecipadamente o fim ou a morte do artista. Apenas diremos que este novo brado, sem ser o último de Domingos da Calçada, manifesta-se num extraordinário contributo para a preservação da memória de um povo – um povo com memória é um povo com identidade –, onde são revelados e/ou perpassam vários saberes que abrangem várias áreas estudadas por gentes de pretenso saber ou a eles candidatos: história, sociologia, antropologia, etnografia, arqueologia e até mesmo filosofia: Durante as audições, cada um dava a sua opinião sobre a forma de melhorar a construção do verso ou do poema, propondo a substituição desta ou daquela palavra por outra que melhor soasse ao ouvido ou avivasse a ideia da mensagem a transmitir. Poética em Aristóteles? Quiçá!
«O Rasto da Memória» tem o condão de eternizar lugares, estados cognitivos e pegadas deixadas pelas gentes de Domingos da Calçada, como diria Mota Leite, “num género de estilo fluente mas pleno de ancestralidade local”.       
Apenas uma nota final para dizermos que Domingos da Calçada, pseudónimo literário Domingos de Castro Barbosa Maciel, nasceu em Durrães, Barcelos, a 18 de Fevereiro de 1931. Aí frequentou a escola primária, tendo prestado provas de exame na Escola Gonçalo Pereira, na sede do concelho. No Porto foi aprendiz de caixeiro, no célebre Passeio dos Carapuceiros, situado então no lado esquerdo da rua dos Clérigos. Prosseguiu a actividade comercial, como trabalhador e gerente, enquanto desempenhava o ofício de avaliador de propriedades rústicas e urbanas.
Ao estabelecer um contacto directo com as gentes do Vale do Neiva, coleccionou ocorrências e ouviu casos passados na Ribeira, sempre registados numa linguagem pura, plena de rusticidade e de termos caídos em desuso. Tal recolha encontra-se publicada na sua colectânea intitulada Seroeira. Também assinou vários trabalhos monográficos sobre costumes e tradições da sua paradisíaca região, para além de ter dois títulos de poesia édita. Tem para publicação um trabalho intitulado Recordações Tripeiras: Os Carapuceiros dos Clérigos.
Um livro e um autor que recomendamos.
         NOTA MÁXIMA!

Monday, February 06, 2017

Inaugurada exposição «liberdade com legendas» de Miguel Rocha!...



«Sugestivo título este “Liberdade com legendas”, encerrando em si uma aparente contradição que se sustenta da antítese entre a possibilidade múltipla da imagem e o condicionamento da palavra…»

Maria José Guerreiro

Integrada num projecto liderado por Rui A. Faria Viana, chefe de Divisão de Biblioteca e Arquivo Municipais, e tendo como director artístico e coordenador o conceituado artista vianense Tiago Manuel, foi inaugurada, no pretérito dia 21 de Janeiro (Sábado), na Ala Jorge Amado da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, a oitava exposição da “obra gráfica de um artista”. Como fez questão de salientar Rui A. Faria Viana, este projecto, iniciado em Maio de 2013, já fez passar por Viana do Castelo artistas como Tiago Manuel, João Fazenda, André Carrilho, Luís Manuel Gaspar, Cristina Valadas, João Vaz de Carvalho, Isabel Baraona e, agora, Miguel Rocha, de seu nome completo Miguel João Pinheiro Soares Rocha, nascido em Lisboa em 1968.
Miguel Rocha, enquanto ilustre artista (ilustrador e autor de banda desenhada), passou a infância em Alhandra, regressando depois a Lisboa onde vivenciou a juventude, estudando na Escola António Arroio e na Sociedade Nacional de Belas Artes. Começou por trabalhar na área da ilustração, publicidade e artes gráficas e fez a paginação de Selecções BD, I Série (1988-1991), enquanto foi desenvolvendo os seus primeiros trabalhos. Estreou-se mais tarde, mais concretamente em 1997, como autor de BD. De lá para cá o seu trabalho tem vindo a ser publicado e mereceu vários prémios no Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), festival que lhe dedicou uma exposição retrospectiva em 2001.


Rui A. Faria Viana referiu ainda, como preceito da elevada dimensão artística de Miguel Rocha, a autoria do cartaz oficial do Campeonato Europeu de Futebol, UEFA Euro 2004.
Tiago Manuel, como director artístico e coordenador do projecto, acrescentou que não basta trazer um artista de referência sem ter uma preocupação de trazer um autor cuja obra faça sentido na programação e no crescimento intelectual dos públicos, nomeadamente os públicos estudantis e até os académicos. Reforçou ainda a ideia de que a obra de Miguel Rocha está ligada à mensagem dos homens, principalmente à BD de intervenção, sem ser panfletária, mas de intervenção. Para o director artístico e coordenador do projecto, há uma evidente preocupação no artista Miguel Rocha de fazer um trabalho, mas também marcado pela ética.


Na voz activa e sapiente dos artistas, gostamos da cumplicidade de José Miguel Gervásio quando escreveu que a culpa é do lápis. «A dimensão disto tudo que se vê, é coisa da porra do lápis. Digo eu, que percorro vezes sem conta o contra caminho que tu fazes no subir. É quase igual, o meu ao teu, mas de sentido oposto. O meu caminho tem outros percalços, levo outras coisas em mãos, o coração cheio de outros enfados. As descidas extraordinárias que fazem os fins de tarde desaparecer engolidos pelo sol, as árvores, pá, ao fundo, à mão de se lhes pegar pequeninas. O mesmo ar lêvedo e, no entanto, a aridez substancia-se diferente. Diferente na essência, quero eu dizer. O meu lado é mais seco. Tem menos palavras que o teu. O teu percurso tem mais bocas. A essência é o sumo deste jogo que eu jogo na corrente que desce. Isto é um jogo que merece ser jogado…» – citamos do texto do catálogo. Percebemos perfeitamente, quando essa cumplicidade entre artistas assenta no lápis, enquanto instrumento do silêncio, colhendo magia.
 Para nós, foi uma manhã maravilhosamente preenchida, principalmente quando aquilo que se faz assenta em noções e métodos de trabalho: preparação, medida e determinação de tempos, decomposição do trabalho e observações instantâneas. A inauguração da exposição de Miguel Rocha, «liberdade com legendas (obra gráfica editada em livros)», foi um excelente exercício de linguagem expressiva, tendo em conta que o uso imaginativo e talentoso da linguagem pode entreter-nos e deliciar-nos. Até na liberdade com legendas, ligada à imagem específica ou à expressão memorável. Dentro da nossa "Douta Ignorância", foi uma manhã de magnânima experiência emocional, porque foram usadas palavras, desenhos e movimento que deram corpo à relação entre o artista e o público, no qual nos incluímos.
Palavras, imagens e movimento, a Arte como actividade humana que consiste em o artista passar a todos nós, intencionalmente e, neste caso, por meio de sinais externos, sentimentos que viveu e de nós sermos infectados pelos seus sentimentos, por forma a experimentá-los também. Miguel Rocha conseguiu-o, porque sentimo-lo.
Obrigatoriamente, uma exposição a visitar, até ao dia 8 de Julho de 2017.
         NOTA MÁXIMA!

Monday, January 23, 2017

«Memórias e afectos à janela do tempo» em Nela Martins Fernandes!...



«Insignificâncias fazem a perfeição, mas a perfeição não é uma insignificância…»

Miguel Ângelo

Acompanhamos desde a primeira hora a “vontade férrea” da Nela Martins Fernandes em passar para o papel alguns dos seus brados poéticos, sendo que esse acompanhamento se viria a transformar numa cumplicidade activa, sem dissimulações, onde a palavra “não” jamais poderia ser pronunciada pela nossa boca. Daí, a “obrigação” por vontade própria em organizar, prefaciar e apresentar as suas “memórias e afectos” à janela do seu e nosso mundo. Dissemo-lo que lá estaríamos, com ou sem bateria. E lá estivemos, incondicionalmente. Isto só foi possível porque através da susceptibilidade de comunicar sem o auxílio dos meios ordinários de comunicação, concentração intensa como forma de organizar os corpos astral e mental e de fazer deles instrumentos para a “consciência em via de desabrochamento completo”.
Estivemos lá porque, necessariamente, acreditamos usufruir da faculdade inata para o estado de vigília. A premonição assim nos o indicava. Tudo mais estava plasmado no prefácio:


Nela Martins Fernandes foi nossa companheira de escola, ao tempo em que a partilha do sonho cheirava a nostalgia. Todos nós sonhávamos acordados porque eramos forjados pela natureza na sua ordem natural, enquanto matéria-prima, substância permanente e primordial de todos os seres. O naturismo era o nosso culto, mesmo quando sabíamos da sua não existência. A personificação e a adoração das grandes forças ou dos fenómenos assustadores da natureza, aglutinavam-se na nossa própria natureza do SER, irreverente e/ou rebelde, mas doce e solidário.
Nela Martins Fernandes, mulher feminina (não feminista) emancipada, musa inspiradora e centro das atenções do Orpheu do nosso tempo, mesmo não tendo sido mordida por uma picada de serpente – não morrendo, por isso, como muitas das “Eurídices” do nosso tempo –, fez-nos descer aos infernos, porque mortos às mãos de mulheres trácias. Era o tempo em que vivíamos, no dizer de J. Evola, longe do reino da máquina, da plenitude do materialismo, do enganoso igualitarismo prosperante, da selvagem concepção economicista da vida, mas, dizemos nós, bem perto do despertar para um estado superior da consciência.
Nela Martins Fernandes, de musa inspiradora do nosso tempo de escola, atreve-se à contemporaneidade das mulheres inspiradas e poetas. «Memórias e afectos à janela do tempo», marca o início de uma caminhada por caminhos cruzados, encontros imaginários, mundos e lugares maravilhosos por ela idealizados, misturando afectos, «levando ilusões, sonhos, / abraços e beijos, (…) / medos e fobias, / esperas eufóricas, / despedidas chorosas, / num vai e vem de saudade, / risos e lágrimas, / encontros e desencontros, / amores e desamores…», remexendo baús e abrindo janelas ao estado temporal de saudade e nostalgia.


Numa escrita simples mas sentida, Nela Martins esconde-se, por vezes, na expressão alegórica, aquela a que nos é dado chamar de “metáfora prolongada ou comparação explorada na qual cada elemento do representante corresponde a um elemento do representado, ideia ou moral em geral.” – citamos Pierre Riffard. Vejamos o exemplo: «Onde andas? / Que fazes? / Curiosidade, / afinal que importa? / Há viagens irrepetíveis, / que deixam vazios indescritíveis, / partindo a alma, / esfarrapando o coração, / vandalizando a existência. / O diário fala de uma vida: / Fui muda / Fui surda / Fui cega / Fui tudo que permiti… / Fui farrapo / e escrava do nosso tempo… / Fui o que não queria: / Morri aos bocados / Temi as ameaças / Aterrorizava-me a chantagem / Fugia-me a vida… / Sobrevivi à escravidão / Gritei / Levantei a voz / Parti / SOU EU.» Não é inocente a sua escrita, aparentemente simples, como também não é ingénua a nossa constatação (firmada) da sua expressão alegórica.
Nela Fernandes não é uma mulher poeta apocalíptica, nem pretende com este seu brado poético, transformar-se num apócrifo escatológico. Antes pelo contrário. Afirmando-se ser daqui, deste mundo, diz não pertencer ao mundo de faz de conta, porque não dirige falsidades e não entende este mundo de gente abismada: «…Munidos de telemóveis sem destino / Miúdos perdidos no monte / Pais permissivos e sem autoridade / Não pertenço onde me ditem as palavras / Nunca pertenci / Não entendo a vida de aparência / Ser pobre é a minha opção / Ser rica requer-me vassalagem / Sou de outro mundo / Sou eu / SOU FELIZ.»
Assente no princípio da sabedoria como um paradoxo, mais palavras nossas serão desnecessárias para nos vergarmos à constância dos bons sentimentos em Nela Martins Fernandes. Só com bons sentimentos (mesmo na revolta) se poderá fazer poesia. Natura son facit saltus, porque entre os mais afastados seres da Natureza há outros intermediários que os relacionam.
Apesar de nos pautarmos pelo princípio estético de que a biografia de qualquer um de nós está na sua acção e obra, apenas referiremos que Nela Martins Fernandes nasceu na freguesia de Deão, concelho e distrito de Viana do Castelo, a 6 de Janeiro de 1955. Fez o Curso Geral de Administração e Comércio na antiga Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, hoje Escola Secundária de Monserrate. Sempre teve o gosto pela escrita e pela leitura. É uma amante da natureza e do desporto. «Memórias e afectos à janela do tempo» é o seu primeiro brado (poético) em letra de fôrma.
         Parabéns, e venham muitos mais!

(In, Cardeal Saraiva, Ano 107, N.º 4640, 19 de Janeiro de 2017, p. 19 - Ao correr da pena e da mente... [172])